Contudo, a rua não esquecia do sujeito, tamanha era a freqüência com que a visitava. Mas hoje, hoje ela o esqueceu, finalmente. O sujeito não aparece mais para visitá-la, o sujeito tem medo. Outros têm medo pelo sujeito. Ela não entende por que um pequeno distúrbio no caminho do sujeito o fez com que parasse de freqüentá-la. A probabilidade de outro distúrbio ocorrer é a mesma de qualquer momento antes deste mesmo ocorrer. Mas a rua nada pode fazer. Por muito tempo o sujeito não irá mais visitá-la. Ela, então, será, de fato, o que o sujeito procurava numa rua ao passar por ela: tranquila, silenciosa e vazia.
Três rapazes, dois em uma bicicleta (B e C) e um em outra (A). O sujeito vê que A se aproxima além das conveções sociais primitivas estabelecidas. A estava vestindo jeans, casaco preto, com capuz (que tapa sua cabeça) e bolsos laterais, que de dentro do direito tirou um revólver. "Ô, meu..." Um pequeno revólver preto, muito parecido com um de brinquedo que tinha quando criança, reconheceu o sujeito. Poderia estar descarregado. Poderia ser de plástico. Mas as intenções de A, B e C, com certeza, não eram de plástico. Segue-se então que B desce da bicicleta, vai ao encontro e pára, agitado, na frente do sujeito: "Celular, meu. Dá o celular! Dá o celular! Não corre! Não corre!", exigiu e advertiu B - que vestia, também, jeans e um casaco semelhante ao de A, porém cinza -, com um tom de voz não gritado, mas imperativo. Pois A tinha um revólver, o sujeito realmente não cogitou correr. O distúrbio já havia acontecido, era apenas questão da intenção dos encapuzados: ação e dinheiro rápidos = danar pouco o sujeito; ação mais lenta e talvez mais dinheiro = deixar o sujeito à mercê da puta que o pariu. O sujeito tira, de imediato, o celular do bolso e entrega para B, que então entrega para C. Nesse momento, C se manifesta ao reparar na pulseira de prata no punho do sujeito. "Pulseirinha, pulseirinha." - diz, com um tom de voz de "haha, faturei". O sujeito apenas lamenta mentalmente o roubo de seu objeto de mais valor que tinha consigo, levanta o punho e C retira a pulseira de sua posse. "A carteira, a carteira!" diz B, com seu usual tom agressivo. O sujeito tira a carteira do bolso traseiro da calça, e diz "Deixa meus documentos!", em um tom de quase súplica. "Pode ficar com documento, só quero o dinheiro", diz B, em um quase tom agressivo-piedoso. O sujeito, disposto a entregar a carteira toda, tenta então retirar seus documentos de dentro dela para entregá-la. Uma atitude de proteção semi-inconsciente, pois o sujeito sabia que o volume de sua carteira o deixaria em mais apuros. B perde a paciência com a atitude do sujeito e arranca a carteira de suas mãos: "Dá o dinheiro, porra!". O sujeito, num reflexo pela atitude de B: "Eu não tenho nada!". Este era o seu medo. Havia na carteira mais dinheiro em moedas que em cédulas. E havia três reais em moedas. Pois o temor se fez: B não mais tinha aquele tom semi-piedoso. Ficara furioso. "Puta que pariu, não tem nada, ô filho da puta!" (o que ele tem contra notas de dois reais?) "Pau no cu!" Junto ao grito enraivecido deste segundo xingamento, B rebaixou mais ainda seu status de imaturo-de-ego-inflado-finjo-que-sou-vítima-da-sociedade-para-fazer-o-que-quero para agressor-imaturo-de-ego-inflado-finjo-que-sou-vítima-da-sociedade-para-fazer-o-que-quero. Desferiu um chute na perna esquerda do sujeito, que sentiu o músculo de sua coxa sendo atingido pela canela direita de B. O sujeito, entretanto, apenas fez uma cara feira e olhou aliviado para a carteira jogada ao chão por B, após este ter guardado os dois reais em seu bolso. Tolo, conseguiria o dobro disso com as moedas. Logo após, B, C e A retornam às bicicletas e seguem pelo mesmo caminho de onde vieram. Agora, este que vos narra se deu conta de não lembrar se uma bicicleta havia sido largado ao chão, mas provavelmente não, pois eles partiram rapidamente. Mas é também certo que B e C estavam em pé na frente do sujeito, enquanto A não desmontou da bicicleta. Haveria, pois um D? É possível, mas ele não teve participação ativa no evento, de qualquer maneira.
O sujeito, olhando para a calçada sob seus pés, junta a carteira atirada, repõe-a no bolso e fita as letras virando a esquina, para a esquerda. Sorri. "Fui assaltado", diz para si. "Finalmente! Estava começando a me sentir um estranho na sociedade!" - ironisa. Ele fita o caminho de volta, cogita tomar outro. Mas iria para direita na esquina. Seguiu seu caminho de sempre, de volta para casa, deixando a rua para trás.
O potencial desse distúrbio é bem concreto, e incrivelmente aterrorizante. Qualquer mente poderia descrever em detalhes tudo que poderia ter acontecido e não aconteceu. Se a ação fosse pior-intencionada e destrutiva, o sujeito agora poderia estar num lugar muito distante daqui. Seja porque o hospital é longe demais, seja porque o destino quis que ele parasse. Claro, há decepção, há desconforto, há um juízo negativo. Mas, sabe, é nada. E esse nada tem muito significado.
Conselho empírico: se você tem alguém identificado na agenda do celular por nomes genéricos (pai, mãe, irmão, namorado, sogro), edite-os e coloque qualquer outro nome, menos um que os identifique diretamente como seu ente querido. Faça isso agora.


