quinta-feira, 18 de junho de 2009

A Rua


Estava o sujeito voltando para casa, pelo seu caminho de sempre, que tomava por ser mais tranquilo, residencial e geralmente deserto. Geralmente. Mas não naquele dia. Naquele dia, a rua viu mais movimento do que o comum. Estranhara. Foi uma agitação ligeira, porém marcante. Não lembrava há quanto tempo aquilo não acontecia, curta que era sua memória. Hoje, estou certo, ela já esqueceu do ocorrido.

Contudo, a rua não esquecia do sujeito, tamanha era a freqüência com que a visitava. Mas hoje, hoje ela o esqueceu, finalmente. O sujeito não aparece mais para visitá-la, o sujeito tem medo. Outros têm medo pelo sujeito. Ela não entende por que um pequeno distúrbio no caminho do sujeito o fez com que parasse de freqüentá-la. A probabilidade de outro distúrbio ocorrer é a mesma de qualquer momento antes deste mesmo ocorrer. Mas a rua nada pode fazer. Por muito tempo o sujeito não irá mais visitá-la. Ela, então, será, de fato, o que o sujeito procurava numa rua ao passar por ela: tranquila, silenciosa e vazia.

Três rapazes, dois em uma bicicleta (B e C) e um em outra (A). O sujeito vê que A se aproxima além das conveções sociais primitivas estabelecidas. A estava vestindo jeans, casaco preto, com capuz (que tapa sua cabeça) e bolsos laterais, que de dentro do direito tirou um revólver. "Ô, meu..." Um pequeno revólver preto, muito parecido com um de brinquedo que tinha quando criança, reconheceu o sujeito. Poderia estar descarregado. Poderia ser de plástico. Mas as intenções de A, B e C, com certeza, não eram de plástico. Segue-se então que B desce da bicicleta, vai ao encontro e pára, agitado, na frente do sujeito: "Celular, meu. Dá o celular! Dá o celular! Não corre! Não corre!", exigiu e advertiu B - que vestia, também, jeans e um casaco semelhante ao de A, porém cinza -, com um tom de voz não gritado, mas imperativo. Pois A tinha um revólver, o sujeito realmente não cogitou correr. O distúrbio já havia acontecido, era apenas questão da intenção dos encapuzados: ação e dinheiro rápidos = danar pouco o sujeito; ação mais lenta e talvez mais dinheiro = deixar o sujeito à mercê da puta que o pariu. O sujeito tira, de imediato, o celular do bolso e entrega para B, que então entrega para C. Nesse momento, C se manifesta ao reparar na pulseira de prata no punho do sujeito. "Pulseirinha, pulseirinha." - diz, com um tom de voz de "haha, faturei". O sujeito apenas lamenta mentalmente o roubo de seu objeto de mais valor que tinha consigo, levanta o punho e C retira a pulseira de sua posse. "A carteira, a carteira!" diz B, com seu usual tom agressivo. O sujeito tira a carteira do bolso traseiro da calça, e diz "Deixa meus documentos!", em um tom de quase súplica. "Pode ficar com documento, só quero o dinheiro", diz B, em um quase tom agressivo-piedoso. O sujeito, disposto a entregar a carteira toda, tenta então retirar seus documentos de dentro dela para entregá-la. Uma atitude de proteção semi-inconsciente, pois o sujeito sabia que o volume de sua carteira o deixaria em mais apuros. B perde a paciência com a atitude do sujeito e arranca a carteira de suas mãos: "Dá o dinheiro, porra!". O sujeito, num reflexo pela atitude de B: "Eu não tenho nada!". Este era o seu medo. Havia na carteira mais dinheiro em moedas que em cédulas. E havia três reais em moedas. Pois o temor se fez: B não mais tinha aquele tom semi-piedoso. Ficara furioso. "Puta que pariu, não tem nada, ô filho da puta!" (o que ele tem contra notas de dois reais?) "Pau no cu!" Junto ao grito enraivecido deste segundo xingamento, B rebaixou mais ainda seu status de imaturo-de-ego-inflado-finjo-que-sou-vítima-da-sociedade-para-fazer-o-que-quero para agressor-imaturo-de-ego-inflado-finjo-que-sou-vítima-da-sociedade-para-fazer-o-que-quero. Desferiu um chute na perna esquerda do sujeito, que sentiu o músculo de sua coxa sendo atingido pela canela direita de B. O sujeito, entretanto, apenas fez uma cara feira e olhou aliviado para a carteira jogada ao chão por B, após este ter guardado os dois reais em seu bolso. Tolo, conseguiria o dobro disso com as moedas. Logo após, B, C e A retornam às bicicletas e seguem pelo mesmo caminho de onde vieram. Agora, este que vos narra se deu conta de não lembrar se uma bicicleta havia sido largado ao chão, mas provavelmente não, pois eles partiram rapidamente. Mas é também certo que B e C estavam em pé na frente do sujeito, enquanto A não desmontou da bicicleta. Haveria, pois um D? É possível, mas ele não teve participação ativa no evento, de qualquer maneira.
O sujeito, olhando para a calçada sob seus pés, junta a carteira atirada, repõe-a no bolso e fita as letras virando a esquina, para a esquerda. Sorri. "Fui assaltado", diz para si. "Finalmente! Estava começando a me sentir um estranho na sociedade!" - ironisa. Ele fita o caminho de volta, cogita tomar outro. Mas iria para direita na esquina. Seguiu seu caminho de sempre, de volta para casa, deixando a rua para trás.

O potencial desse distúrbio é bem concreto, e incrivelmente aterrorizante. Qualquer mente poderia descrever em detalhes tudo que poderia ter acontecido e não aconteceu. Se a ação fosse pior-intencionada e destrutiva, o sujeito agora poderia estar num lugar muito distante daqui. Seja porque o hospital é longe demais, seja porque o destino quis que ele parasse. Claro, há decepção, há desconforto, há um juízo negativo. Mas, sabe, é nada. E esse nada tem muito significado.

Conselho empírico: se você tem alguém identificado na agenda do celular por nomes genéricos (pai, mãe, irmão, namorado, sogro), edite-os e coloque qualquer outro nome, menos um que os identifique diretamente como seu ente querido. Faça isso agora.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Presença

Do Latim, praesentia;
A presença não está sujeita à mera visualização
Existência;
Celebremente conspícua
Semblante;
Tão surpreendente quanto belo
Presença, querida presença
Te contemplo sem controle
Ignorando minhas disformes reflexões
À distância, estão encobertas as intenções
Presença, capturo-te em mente e sensação
À presença, destino meu sentimento
Á presença, destino consideração
À presença, destino a relação
Presença, estás presente até o presente instante,
Estiveste presente desde o primeiro momento presente,
Presença, contemplo-te os olhos profundos com a convicção
De que estás presente até teu último sorriso
Ah, presença...

domingo, 1 de fevereiro de 2009

In Perfect Harmony


A hora é essa. Hora de se impressionar. Você nunca sabe o que está por vir, então quando vem, parece uma surpresa. Porém, sabemos muito bem, "lá no fundo", que fizemos escolhas e tomamos caminhos determinados para que isso viesse, isso acontecesse.
Poderia até ser um pequeno e confortável diálogo com o inconsciente:
"Certo, você finge que me engana e eu finjo que acredito. Vamos nos dar muito bem assim."

Como é de praxe, faz uma década que não escrevo aqui, então procuro escrever somente quando "I feel like writing"(se possível interprete em inglês, se não, é "ter vontade", mas não é só querer, é sentir que é a hora). Contudo, ficar dizendo que "faz tempo que não posto" é só desculpa pra encher linhas. Ultimamente tenho ido até as coisas diretamente no seu âmago, chega de inconsistências de certezas e auto-aprovações.

Como, felizmente, mantenho algum tipo de registro durante os meses que se passam exatamente no mesmo tempo em que se passaram nos outros anos (é, nada de "demoraram pra passar" ou "passaram muito rápido"), posso afirmar com veemência que meu estado, ao menos conscientemente, está favorável (e crescendo) em relação ao último semestre de 2008.

"No que crer, afinal? Crer? Estou precisando daqueles memoráveis sorrisos de outrora."
Não é fácil explicar a evolução desse pensamento. A tranquilidade que me abrange agora não é fácil de ser conquistada. O fator "Quero, estou disposto, então vou lá e faço" ainda é, como sempre, o principal, mas procurar aquelas pessoas que também querem, estão dispostas e lá fazendo é sempre de grande ajuda, de grande valor. Um lugar onde seus devaneios têm sentido para mais gente além de você mesmo, onde você experiencia o mesmo que os outros, mas quando cada um abre a boca, sai algo totalmente diferente. E claro, a parte mais importante: o autoconhecimento. (Templo de Apolo? Sócrates? Matrix?) E você não faz idéia (se você faz idéia, escreva sobre isso nos comentários) de como o grande mistério da sua vida pode estar presente nesse único fator. Um único fator pode parecer pouco, mas se ele é onipresente, então deve realmente ter alguma relevância, não é mesmo?
Conhece-te a ti mesmo!
Know thyself! and be it

Eu estava relendo agora meu último post antes desse, e me lembrei de como fico embasbacado quando leio as outras coisas que já escrevi. Eu lembro a luz daquele momento de inspiração e ousadia, enchendo a cabeça de um estudante. Agora eu não sou o mesmo, bem como você não é. E é por isso mesmo que eu me impressionei, agora, com o que foi escrito antes. Gosto do que já escrevi, mas não posso ficar buscando inspirações naquilo, senão vou ficar andando sem sair do lugar, o que inadmissível para a minha cabeça.

Presente, atitude, ansiedade (Palavras-chave em que pensei enquanto escrevia e resolvi deixar aí)

"Aprecie o presente como se não houvesse futuro."
Você já leu/ouviu alguma coisa com essa idéia antes, eu tenho certeza. Mas já parou pra pensar? Tem certeza? Então vamos lá, juntos, pensar mais uma vez.
O pensamento, o cérebro, é como outro músculo qualquer do corpo, que reage a qualquer coisa que o estimule, no caso, qualquer um dos sentidos estimula o pensamento, tanto que por muitas vezes pensamos em coisas absurdas "sem querer". Mas às vezes algumas pessoas também chamam isso de "criatividade". A questão é: não ignore. Se você pensou em algo repentinamente, se aquilo came out of the blue (veio do nada), veio de algum nada que te fez pensar nisso, então esse nada não é um nada tão irrelevante assim, concorda? E muitas vezes esse nada é aquela fagulha que se acende e só precisa de uma atitude para ser concretizada. Pensei, fiz. O avaliar fica pra outra hora. Sim, eu estou falando justamente daquela maldita hora que te vem aquela idéia na cabeça ou quando alguém te faz uma proposta praticamente inconcebível que te entope de ansiedade até o último fio de cabelo, e você consegue meter a mão na consciência e em uma fração de segundo dizer "Só se for AGORA!"
Certo, pode ser um exemplo um pouco fora de contexto, mas é exatamente no âmbito desse tipo de atitude que eu quero chegar. Isso tudo envolve a importância do momento presente, e cria uma harmonia e tranquilidade posterior muito melhor que aquele possível remorso sentido por algo que deixou de ser feito, que deixou de ser aproveitado. É a soma de não ignorar seus pensamentos com usá-los propriamente no momento em que se está vivendo. E isso é totalmente prático no cotidiano, o que de fato caracteriza uma verdadeira experiência que não pode ser considerada "surreal" ou, mais vulgarmente, "uma cachaça". Está ali e pronto, agora só depende de você.

Faça a diferença, o mundo está precisando disso. (Da diferença em si e das pessoas que a fazem)

Não desenvolvi muito os assuntos, mas certamente cada um merece um gigantic post individual. E esses posts virão, aguarde.
Quer concordar? Quer discordar? Quer ao menos opinar? Atreva-se.
Os comentários estão logo ali, a um clique.